sexta-feira, 26 de maio de 2017

Aquela vez que meu coração estava em suas mãos

Hoje foi a primeira vez que pensei em você em algum tempo. E, quando suas memórias voltaram para mim, com todos os seus sorrisos e aquele jeito de falar que me hipnotizava, lembrei o que fez meu coração bater um pouco mais forte quando estávamos perto.
Não sei se foi uma forma de driblar a falta que você me faz ou só um mecanismo para que fosse possível seguir em frente, mas preferi deixar você guardado em algum lugar que não me fizesse pensar o tempo todo naqueles momentos tão especiais que vivemos. Eu não precisava das saudades que preencheram a sua ausência ou de lamentar aquilo que nunca foi, apenas tinha que continuar, sem olhar para trás. Por isso deixei você lá por um tempo, fingindo que não lembrava mais.
Mas não pense que acabei esquecendo você. Tudo o que vivemos ficou em mim, mesmo que eu não estivesse consciente disso. Ao seu lado aprendi muitas coisas, venci barreiras e cheguei longe. Você me inspirou, ainda que não tivesse percebido. E essa inspiração continua comigo até hoje.
Demorei a entender que uma pessoa permanece em nós, ainda que ela tenha se afastado. É como se você não tivesse partido, ainda que não possa mais ouvir sua voz ou olhar em seus olhos. Você se tornou uma presença espectral, mas que não me assombra; apenas continua a me guiar. Por esse motivo que afirmo que não foi possível esquecer sua existência.
Não tento mais imaginar se você ainda pensa em mim ou se ainda se lembra que eu existi e passei pelos mesmos caminhos que você. Já não importa; não faz diferença. O que aconteceu ficou para trás, não pode ser modificado. Sua partida é um fato e ainda sinto sua ausência. Mas ficou o carinho e a lembrança de quando meu coração ficou em suas mãos. 
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sexta-feira, 19 de maio de 2017

As palavras dentro de mim

Eu era um amontoado de pensamentos e sonhos aprisionados em palavras nunca ditas. Eram tantas coisas que habitavam em meu interior, mas que nunca conseguiam ganhar a luz do dia. Estava presa dentro de mim mesma, como se houvesse cinco mil vidas esperando para serem conhecidas.

E, enquanto essas vozes gritavam pela liberdade, eu mesma me achava com medo da vida. Era o medo que me intimidava, deixando-me escondida de tudo. Estava acuada em meu próprio desespero, deixando que tudo me assustasse e fizesse com que a fuga fosse algo tão natural como respirar.

Depois de um tempo, o medo que se justificava a cada esquina fazia com que eu questionasse minha própria existência. Não havia nada que me desse propósito ou que dissesse que eu merecia mais que a toca onde me escondia e tentava me proteger. Todas as outras pessoas eram tão corajosas que a minha vergonha virou mais uma prisão sufocante. Talvez aquele tivesse que ser o meu destino: observar a vida passar, sem me sentir pertencente a ela.

Foi fácil me sentir descartável.

Encontrei vozes que ecoavam meus piores medos. Elas não se calavam, mesmo que eu pedisse. Na verdade era como se elas ficassem mais altas diante do meu desespero, infligindo dores e feridas que não tinham tempo de cicatrizar. Fiquei cega diante de meu reflexo, sendo incapaz de enxergar no profundo de mim. Silenciei os pensamentos e sonhos que gritavam, trancando minha essência junto. Até esqueci quem eu era.

Chegou um dia em que deixei de me olhar de verdade. Meu reflexo se tornou um desconhecido e não podia reconhecer o que havia em mim. Os tempos passaram rápido e, antes que pudesse perceber, os anos me distanciaram daqueles meus sonhos. As vozes que se calaram quase deixaram de existir. O mundo perdeu as cores, as nuances e os traços. Tudo ficou borrado.

Foram as palavras que salvaram a minha vida.

Quando eu não consegui falar, as letras se materializaram no papel e tomaram corpo diante de mim. Elas me contaram histórias que estavam dentro de mim, mostrando aquelas vozes que por tanto tempo ignorei. Vidas inteiras que eram parte do meu ser, que falavam sobre a minha essência perdida. Que me refletiam melhor que o reflexo que eu já não olhava no espelho, pois eu conseguia enxergar a realidade nelas. E então pude me ver pela primeira vez.

Encontrar a verdade de seu interior é uma das experiências mais intensas que se pode viver. É como se a vida inteira houvesse uma venda em seus olhos e, em um suspirar, ela caísse por terra. A luz então atinge as pupilas, machucando no começo e trazendo o temor. Mas então seu olhar se adapta e você entende o que está vendo. Não é tão assustador quanto você achou que seria. Verdade seja dita, é libertador.

Quando encontrei as palavras e descobri que elas me refletiam, entendi muito sobre mim. E então permiti me ver e me despir do temor que tanto me atormentava. Porque o mundo ainda é um lugar que me faz temer, mas o que mais me afligia era me negar todos os dias, não permitindo que eu desejasse, sonhasse e lutasse. Eu poderia ser corajosa e merecia alcançar aqueles sonhos que ficaram enterrados por tanto tempo.

Sou escritora porque amo as palavras. Sento diante de um computador, imaginando histórias inteiras, sonhando e vivendo. Aquelas personagens são parte de mim, os pedacinhos que mais me permitem ser feliz e que me conduzem a olhar para dentro do meu interior, amando o que há ali. Quando escrevo, sou completa.

E, mesmo quando não estou viajando pela estrada das frases, sei que escrever me modificou. As palavras me despertaram, fizeram com que as cores retornassem ao meu mundo.

Se me amo hoje é porque amei o que as palavras me mostraram primeiro. 
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