sexta-feira, 16 de junho de 2017

Crônicas problematizadoras #2: Essa tal de heteronormatividade

Quem foi que inventou que o mundo é heterossexual? Sério, eu preciso de um nome, porque essa pessoa e eu precisamos ter uma conversa muito séria.
Eu já passei todo o diálogo em minha cabeça algumas vezes, então sei mais ou menos como começar. Seria algo mais ou menos assim: “então, não sei o que você queria disso tudo, mas já pensou quantas pessoas foram excluídas das representações que a gente encontra por aí? Tudo isso porque você achou que seria uma boa ideia que tudo fosse um único padrão, o heterossexual”.
Você já pensou como sua cabeça enxerga tudo dessa forma, como se todos fossem configurados pela natureza para serem heterossexuais? Quer dizer, somos bombardeados de todos os lados com esse tipo de mensagem, enxergando aquele padrão homem e mulher de romance tradicional. Parece tão irrefutável quanto a lei da gravidade, não é mesmo? Uma lei universal e imutável, que condiciona todo mundo a entender que sentir atração pelo gênero oposto ao seu é inevitável e automático.
Mas as coisas não são bem assim e, por mais que a sociedade nos molde na forma heterossexual, a verdade é que a atração humana não pode ser colocada dentro de uma caixinha única e limitadora.
É muito difícil encarar um mundo que só apresenta uma opção como a válida, sabia? Talvez você não entenda isso, e é compreensível caso seja heterossexual. Tudo a sua volta está a seu favor, nada contraria a atração que você tem. Nada condena a sua afetividade, muito pelo contrário.
Mas se você sente o deslocamento e a invisibilidade dentro da heteronormatividade vigente, estamos juntos nessa. É triste e opressor não nos encontrarmos por aí. Às vezes chega a ser desesperador a negativa que a sociedade nos dá, não somente na forma dos preconceitos descarados que estão por toda a parte. Encontrar poucos filmes, livros, séries que nos representem (isso quando o fazem direito) é ter a negativa em nossa cara todos os dias.
Por isso quero saber: quem inventou que o mundo é heterossexual?
Quero saber, pois preciso dizer a essa pessoa qual é a sensação que vivemos todos os dias. Preciso mostrar as dificuldades que enfrentamos em nos descobrir, em nos achar e em aceitar nossa essência. A venda da heteronormativdade é algo que afeta todo mundo, aprisionando as pessoas a um padrão opressor e dolorido. Não deveríamos limitar o que somos apenas pelo que a sociedade acredita ser a única forma aceitável de amar.

E então, vocês por um acaso conseguem me dizer com quem preciso falar sobre essa tal hetronormatividade?
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terça-feira, 13 de junho de 2017

Um dia eu tive um sonho

Antes que eu me entendesse como pessoa, já estava tudo determinado ao meu redor. 


O mundo fazia questão de dizer quem eu era e qual era o meu lugar. Eu tinha nascido mulher, portanto meu destino estava selado. Eu seria sempre dependente do masculino e do que ele diria sobre mim. Não importava minhas ações ou o que pensava sobre mim mesma: minha voz sempre seria abafada pelo patriarcado que desde o início me sufocava. 



Tudo me dizia que aquilo era natural. Fazia parte de como as coisas deveriam ser. Princesas eram damas indefesas que precisavam esperar pelo resgate de um homem em um cavalo branco. Eu era apenas mais uma daquelas garotas indefesas, que ficavam à sombra de um herói. Teria que me conformar com isso, afinal era assim que tudo seria. Bastava que eu me acostumasse. 



Nunca consegui. 



Claro que eu seguia os ventos do patriarcado, sem saber que poderia fazer diferente. Muitas coisas me foram impostas sem que soubesse que era possível não concordar. Coisas que me marcaram profundamente e que ainda hoje estão grudadas em mim, afetando minha auto estima. Mas havia algo dentro de mim que me fazia buscar por exemplos de princesas que não esperavam pelo príncipe encantado. Personagens como Leia Organa, que pegava um blaster e abria caminho entre stormtroopers ou batia de frente com o gran moff Tarkin, sem nem pestanejar. Sarah Connor, que mandava exterminadores pelos ares e se negava a aceitar o destino, preferindo batalhar contra ele. April O'Neil ou Lois Lane, que deixavam que a curiosidade as fizesse flertar com o perigo e a aventura, não necessariamente nessa mesma ordem. E assim por diante. 



Eu ainda não sabia que essa era a minha forma de começar a questionar o patriarcado. Procurava modelos que me mostrassem que as coisas não eram daquela forma, e que eu poderia ser diferente no mundo dominado por homens. 



Mesmo assim, fui vítima do patriarcado. Por muitas vezes (e até hoje) deixei de acreditar em mim, sem saber que era porque o mundo machista dizia que eu não deveria. Esperei por alguns príncipes encantados, mesmo aqueles que não desejava de forma romântica, mas que achava que poderiam me salvar dos perigos do mundo, sem achar que eu era capaz de minha própria salvação. E por isso acreditava que devia ter mais amigos homens e que, quem sabe dessa forma, eu poderia quase ser "um dos caras". Era uma ilusão tentar me adequar a um mundo que não me aceitava. Eu deveria ser minha própria heroína. E buscar outras heroínas que me ajudassem a vencer. 



Foi assim que o feminismo entrou na minha vida. 



Ele me abriu os olhos pouco a pouco, mostrando que todo aquele conceito de mundo dominado por homens tinha sido criado e que não era algo necessariamente estático. Eu e outras mulheres não éramos biologicamente determinadas a depender dos homens. Poderíamos ser como Sarah, Leia, April, Rey, Furiosa, Moana... enfim, nomes da ficção que nos inspiravam na vida real. A gente poderia sonhar em ser nossas próprias salvadoras. 



O mundo continua assustador para nós, com toda certeza. Ainda não podemos andar pela rua à noite sozinhas, sem aquele medo constante de que tantas coisas possam nos ocorrer. Ainda não conseguimos nos sentir à vontade em um relacionamento, ou mesmo terminando algum que não nos deixe confortável. Ainda não podemos aspirar algumas profissões. Ainda não ganhamos o mesmo que os homens. Ainda somos objetos sexuais, pedaços de carne usadas para vender cerveja e outros produtos, Ainda somos parte de corpos que não nos pertencem. 



A igualdade ainda é um sonho. A necessidade de dizer obviedades como "o corpo é nosso" e "ninguém merece ser estuprada", com direito a receber comentários relativos ao nosso corpo ou comportamento sexual. Ainda somos julgadas por sermos "santas" ou "putas", sendo o limite entre essas duas palavras muito tênue. Ainda somos mortas todos os dias. 



Mas desde criança eu tinha esse sonho, e nele eu não tinha medo. Poderia ser quem eu quisesse, do jeito que eu quisesse, e nada ou ninguém me impediria. Poderia andar por todos os lugares e ser dona de mim mesma.


Os anos se passaram e hoje tenho todos os medos que me foram mostrados. Mas não deixei esse sonho de lado. Ainda acredito que é possível e luto por isso. Ainda que não por mim ou pelas mulheres da minha geração, mas pelas meninas e mulheres que estão vindo por aí. E já vejo algumas diferenças nelas. Já percebo que, pouco a pouco, o mundo pode ter espaço para as mulheres também.
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Texto postado originalmente na edição #36 da minha newsletter. Quer conhecer um pouco mais de mim e ter acesso a esse conteúdo exclusivo? Então assine aqui, é de graça!
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sábado, 10 de junho de 2017

Crônicas problematizadoras #1: Problematizar ou não problematizar? Eis a questão

A entrada nos caminhos da problematizações são jornadas sem retorno. Uma vez que a gente abre os olhos para aqueles pequenos detalhes que antes passavam batidos, um novo mundo se mostra diante de nós. E não é algo bonito, muito pelo contrário: cada coisa aterrorizadora que daria um filme de terror repleto de sustos.
Enquanto escrevia esse texto, tentei lembrar a última vez que consegui assistir a alguma coisa no conforto do meu lazer sem achar algum ponto que desencadeasse alguma pulga atrás de minha orelha. Faz um tempo, um bom tempo.
Verdade seja dita: o que é lazer, quando seu cérebro está sempre preparado para problematizar?
E não é por falta de tentativa, podem ter certeza. Há momentos em que quero desativar o botão da problematização e curtir alguma coisa sem me preocupar, só relaxar. Mas quem disse que consigo evitar o funcionamento de minha mente ou o rolar de olhos que segue a identificação do conteúdo problemático? É quase tão natural quanto respirar, piscar ou mexer os pés diante da batida de uma música.
A ânsia de identificar o que poderia ser melhor vem com muita força naquelas coisas que estamos acabando de conhecer. Mas não há festival de caras e bocas maior do que quando você está revendo ou relendo algo que gostava tanto e que descobriu que é tão problemático e errado. Não tem como desviar da vergonha daquele seu eu que não via nada demais.
Talvez esse seja o impacto mais intenso de quando a problematização entra em nossas vidas.
Claro que desejamos melhores representatividades na mídia e que algumas barbaridades não sejam cometidas no processo. Porém, observar e encontrar os problemas é entender que e você é uma pessoa em busca de melhorar. E saber que seus olhos, que antes ignoravam o absurdo, agora percebem como você fazia parte de tudo aquilo que agora se abomina. É difícil se reconhecer dessa forma.
No entanto, mais do que entender que estamos em constante desconstrução e aprimoramento, é preciso que a gente assuma que os padrões da sociedade ao nosso redor fazem com que a gente tenha preconceitos que grudam de tal forma que é como se não pudéssemos nos livrar deles. No entanto é possível, desde que a gente se esforce. E é justamente por isso que nosso olhar aguça e nosso eu problematizador quase enlouquece.

Então, quando estamos arrancando aos cabelos diante de cada coisinha que nos deparamos, refletimos nosso próprio interior e o que estamos desconstruindo e aprimorando. Por isso que continuo problematizando. Por isso não desisto. 
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Esse texto é o primeiro de uma série que farei sobre reflexões e relatos sobre como é ser a problematizadora treteira dos rolês. Espero que goste e que continue a acompanhar os próximos. 
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sábado, 3 de junho de 2017

O espaço deixado pela ausência

Não se pode ignorar o vazio da ausência.
É difícil fechar os olhos e não sentir o eco dentro do próprio coração, bem naquele lugar onde as lembranças daquela pessoa permanecem, mesmo quando ela já partiu. Então é fácil se dar conta de que acabou; aquela pequena alegria escorreu pelos dedos sem que fosse possível mantê-la.
Tudo se transforma em uma dor aguda, incômoda e persistente. É difícil respirar, pensar ou esbarrar em tudo aquilo que lembra quem partiu. O mundo fica repleto de indícios daquela presença e lembra constantemente de quem costumava estar ali, tão perto, tão presente… dói pensar que bastou um piscar de olhos para que tudo encontrasse o fim inevitável.
É hora de recomeçar.
É hora de dar novo significado tudo o que um dia fez sentido e agora significa feridas que demoram a cicatrizar. É preciso retomar os caminhos que se interromperam quando a partida se fez, ainda que o ânimo de prosseguir com a jornada não possa ser encontrado. Partiu, junto com a pessoa que encontrou a saída mais próxima e foi embora sem olhar para trás. Você ficou; a vida continuou e não espera você se recuperar para continuar lá fora.
O retorno é tão complicado quanto a dor que ainda atormenta. Mas você descobre que consegue caminhar, mesmo que devagar. Você sabe o que é recomeçar e que a persistência pode ser a melhor amiga que você precisa, junto com a vontade e a gratidão por conseguir olhar para frente. A luz de um futuro chama. O desejo de cura fortalece.
Algumas vezes é possível perceber o vazio, mas ele diminui a cada dia. Ainda sobram lembranças, assim como as feridas persistem em infligir a dor. Você aprende a crescer com cada uma dessas coisas e entende que o vazio era o espaço necessário para que você se aconchegasse dentro de seu ser, encontrando sentido em seu próprio interior. As respostas estavam ali para aquelas perguntas que tanto martelaram sua mente. Você era a solução que precisava.

O tempo passou e as cicatrizes estão ali, não para mostrar o vazio; e sim para que você perceba o quanto cresceu. E a ausência que antes machucava agora é a lembrança do que foi possível aprender com quem partiu. As coisas boas ficaram e a vida continua. 
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