terça-feira, 13 de junho de 2017

Um dia eu tive um sonho

Antes que eu me entendesse como pessoa, já estava tudo determinado ao meu redor. 


O mundo fazia questão de dizer quem eu era e qual era o meu lugar. Eu tinha nascido mulher, portanto meu destino estava selado. Eu seria sempre dependente do masculino e do que ele diria sobre mim. Não importava minhas ações ou o que pensava sobre mim mesma: minha voz sempre seria abafada pelo patriarcado que desde o início me sufocava. 



Tudo me dizia que aquilo era natural. Fazia parte de como as coisas deveriam ser. Princesas eram damas indefesas que precisavam esperar pelo resgate de um homem em um cavalo branco. Eu era apenas mais uma daquelas garotas indefesas, que ficavam à sombra de um herói. Teria que me conformar com isso, afinal era assim que tudo seria. Bastava que eu me acostumasse. 



Nunca consegui. 



Claro que eu seguia os ventos do patriarcado, sem saber que poderia fazer diferente. Muitas coisas me foram impostas sem que soubesse que era possível não concordar. Coisas que me marcaram profundamente e que ainda hoje estão grudadas em mim, afetando minha auto estima. Mas havia algo dentro de mim que me fazia buscar por exemplos de princesas que não esperavam pelo príncipe encantado. Personagens como Leia Organa, que pegava um blaster e abria caminho entre stormtroopers ou batia de frente com o gran moff Tarkin, sem nem pestanejar. Sarah Connor, que mandava exterminadores pelos ares e se negava a aceitar o destino, preferindo batalhar contra ele. April O'Neil ou Lois Lane, que deixavam que a curiosidade as fizesse flertar com o perigo e a aventura, não necessariamente nessa mesma ordem. E assim por diante. 



Eu ainda não sabia que essa era a minha forma de começar a questionar o patriarcado. Procurava modelos que me mostrassem que as coisas não eram daquela forma, e que eu poderia ser diferente no mundo dominado por homens. 



Mesmo assim, fui vítima do patriarcado. Por muitas vezes (e até hoje) deixei de acreditar em mim, sem saber que era porque o mundo machista dizia que eu não deveria. Esperei por alguns príncipes encantados, mesmo aqueles que não desejava de forma romântica, mas que achava que poderiam me salvar dos perigos do mundo, sem achar que eu era capaz de minha própria salvação. E por isso acreditava que devia ter mais amigos homens e que, quem sabe dessa forma, eu poderia quase ser "um dos caras". Era uma ilusão tentar me adequar a um mundo que não me aceitava. Eu deveria ser minha própria heroína. E buscar outras heroínas que me ajudassem a vencer. 



Foi assim que o feminismo entrou na minha vida. 



Ele me abriu os olhos pouco a pouco, mostrando que todo aquele conceito de mundo dominado por homens tinha sido criado e que não era algo necessariamente estático. Eu e outras mulheres não éramos biologicamente determinadas a depender dos homens. Poderíamos ser como Sarah, Leia, April, Rey, Furiosa, Moana... enfim, nomes da ficção que nos inspiravam na vida real. A gente poderia sonhar em ser nossas próprias salvadoras. 



O mundo continua assustador para nós, com toda certeza. Ainda não podemos andar pela rua à noite sozinhas, sem aquele medo constante de que tantas coisas possam nos ocorrer. Ainda não conseguimos nos sentir à vontade em um relacionamento, ou mesmo terminando algum que não nos deixe confortável. Ainda não podemos aspirar algumas profissões. Ainda não ganhamos o mesmo que os homens. Ainda somos objetos sexuais, pedaços de carne usadas para vender cerveja e outros produtos, Ainda somos parte de corpos que não nos pertencem. 



A igualdade ainda é um sonho. A necessidade de dizer obviedades como "o corpo é nosso" e "ninguém merece ser estuprada", com direito a receber comentários relativos ao nosso corpo ou comportamento sexual. Ainda somos julgadas por sermos "santas" ou "putas", sendo o limite entre essas duas palavras muito tênue. Ainda somos mortas todos os dias. 



Mas desde criança eu tinha esse sonho, e nele eu não tinha medo. Poderia ser quem eu quisesse, do jeito que eu quisesse, e nada ou ninguém me impediria. Poderia andar por todos os lugares e ser dona de mim mesma.


Os anos se passaram e hoje tenho todos os medos que me foram mostrados. Mas não deixei esse sonho de lado. Ainda acredito que é possível e luto por isso. Ainda que não por mim ou pelas mulheres da minha geração, mas pelas meninas e mulheres que estão vindo por aí. E já vejo algumas diferenças nelas. Já percebo que, pouco a pouco, o mundo pode ter espaço para as mulheres também.
---------------------------------------------------------------------------
Texto postado originalmente na edição #36 da minha newsletter. Quer conhecer um pouco mais de mim e ter acesso a esse conteúdo exclusivo? Então assine aqui, é de graça!

2 comentários:

  1. Olá, tudo bem?
    Que texto lindo essa reflexão é maravilhosa.
    Fico feliz que você não desistiu dos seus ideais, não só por você, mas por todos aqueles por quem você luta.
    Força e sucesso sempre,
    Beijos

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá, Faby, tudo bem?

      Agradeço demais ao seu comentário nesse meu texto <3 É bom demais receber esse retorno, principalmente em algo tão significativo.

      Espero que volte mais vezes a esse espaço <3

      Excluir

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...